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Pelos becos

Perambulo pela cidade.

Nessa atmosfera contemporânea de amor fácil, porém superficial, remeto meus pensamentos aos becos escuros em meio a avenidas encardidas nas entranhas da metropole.

Os becos levam sempre a lugar nenhum, pois se sem saída, a saída é retroceder.

E é assim que a superficialidade se impõe nesses dias de internet ultra rápida.

A web com seus logaritmos a identificar fragilidades e a causar feridas que nunca cicatrizam.

A casca da ferida se desfaz ao mínimo movimento e o sangue, tal como vinho, jorra de um corpo surrado.

E como é surrada a mente nesses tempos de urgência constante.

Tempos onde a existência é coberta por pele delgada que se desfaz ao alimentar o punhal que lhe faz viver a chaga.

E assim, em meio a incertezas teço comentários desconexos.

E pela cidade cheia de concreto, asfalto e superfícies frias, o novo perece.

E assim...

Nas vitrines pelos corredores do shoping center a moda da manhã restará mofada nas primeiras horas da noite e alimentará a sede insaciável por uma nova moda que preencha os espaços, sempre vazios, do estômago do mercado de consumo.

Mas, não me enrubeço, não me torna ainda mais tímido a falta de certezas.

A blusa, o chinelo, a joia, a bolsa , o automóvel já estarão enferrujados quando a larica pelo novo se impor.

E então, a alma e o corpo do que é humano perecem, assim como perece o amor.

E por essa trilha se impõe, ao corpo e mente do homem dessa época, a busca pelo afago pago.

O corpo e o amor a preços de mercado.

E segue frágil a existência, sem conexão com a lucidez, pois a certeza reside em frases sem conexão com o que profundo.

E por esse caminho certo é a morte, pois de todas as certezas essa é a que não falha.

E por essas linhas tingídas de ilucidez, retorno aos becos sem saída repletos de vagabundos e prostitutas.

De homens bêbados e frágeis moralmente, de homens perdidos em meio à própria existência.

Nessa toada o amor é o antídoto e também o veneno, pois da busca pelo amor eterno, resta a superficialidade do afago com meretrizes.

E por assim se segue no caminho tortuoso da realidade contemporânea.

De superficialidades talhadas a marketing, onde da ferida incicatrizante jorra a seiva a alimentar todo a lógica da sociedade de consumo.

E por esses becos o amor é também mercadoria perecível, como todo objeto comportamentalmente ensejado pela lógica do capital.

E por derradeiro resta dizer, que em meio à luz quase ausente, desfilando por becos sem saída, reside a última esperança de homens vazios de existência.

 

 

Ton Costa
Enviado por Ton Costa em 17/03/2025


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